Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

Quinta-feira, 17 de Março de 2011

Intervenção na Assembleia Municipal de Lisboa de 15-03-2011

Caros concidadãos;

1. Quero começar por dizer que numa altura em que os cidadãos olham, cada vez mais, com desconfiança para as instituições democráticas e para a política e os políticos em geral, mercê das sucessivas más governações que empurraram o país para uma crise económica e social que se arrasta há já tempo de mais, não deixa de ser com agrado que noto o esforço e empenho constantes do actual executivo camarário bem como da Sra. Presidente desta Assembleia em abrir a discussão dos mais importantes assuntos que regem a vida desta nossa cidade aos cidadãos interessados em fazerem-se ouvir para lá do voto; seja quanto a esta questão da Reforma Administrativa seja quanto ao Orçamento Participativo ou quando as escolas vem aprender a participar. Esperemos que em breve, para lá de todas as desavenças partidárias, o bem comum possa falar mais alto e o Conselho Municipal de Juventude comece a funcionar em pleno.

2. Quanto à Reforma propriamente dita há que assinalar um ponto da máxima importância e que constitui uma outra grande vitória: esta mudança que agora está em discussão pública aproximará os munícipes dos centros de decisão política com a relevante entrega de competência às Freguesias: as entidades mais próximas dos cidadãos e mais conscientes de como certas decisões podem ou não influir positivamente na vida daqueles que residem em Lisboa ou, não residindo, aqui encontram diariamente o seu lugar de trabalho usufruindo dos seus serviços e comércio. Mas mesmo aqui teremos de estar atentos: que esta entrega de competências não sirva, como serviu no passado, para a Câmara Municipal poupar dinheiro e livrar-se de problemas que não consegue resolver. Pede-se apenas, e nunca menos, que juntamente com as competências, as Juntas recebam a totalidade dos meios necessários para prestar um serviço digno e que constitua uma mais valia para as populações.

3. Publicamente, a questão que se destaca mais é porém a da diminuição do número de Freguesias, das actuais 53 para 24. Esta alteração é ambiciosa, mas talvez peque por defeito. Na dúvida, porque não trouxemos a discussão outros projectos de outros partidos que não o do PS e PSD? De qualquer modo não deixa de ser redutor que publicamente se cinja a discussão quase apenas em torno desta questão, resultando daqui um aproveitamento político muito prejudicial à discussão da Reforma por inteiro.

4. Algo importante que esta mudança trará será a da diminuição do número de membros eleitos à Assembleia Municipal. Também aqui podemos ser mais ambiciosos, aproveitando tal facto para repensar o lugar e o papel dos Presidentes de Junta nesta Assembleia. Deverão ter lugar? Devendo, deverão poder votar todos os documentos aqui apresentados? Com que legitimidade? Esta questão não deve ser desviada da discussão que estamos agora a ter a propósito da Reforma Administrativa da Cidade de Lisboa já que se liga intimamente com os interesses que esta Assembleia se propõe defender.

5. Quando em 2009 se concluiu o Processo de Elaboração da Carta Estratégica de Lisboa para os anos 2010-2024, quem se atreveria a negar que finalmente os lisboetas poderiam começar a sentir que a cidade programava para si um lugar melhor num mundo globalizado? Este sentimento de esperança na construção de uma cidade melhor, transversal a todos os que amam Lisboa, tem aqui e agora, em torno deste projecto, um dos seus maiores desafios. Desafio esse que, em nome do bem-estar das populações e dos cidadãos da República não deverá cair em saco roto. Exorto pois, todos os entes políticos públicos e membros da Polis a pensar acima das suas cabeças e a assumir este desafio de construir uma cidade melhor através da aprovação desta Reforma em todas as instâncias próprias.

Relembro, para terminar, um velho dito latino: Omnis Civitas contra se divisa non stabit: A cidade contra si desunida não permanecerá. Possamos nós fazer perdurar Lisboa sem as ruínas que a vão consumindo.

Disse

Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

Anatomia de uma doença pública

Renovado no seu mandato presidencial por mais cinco anos, Cavaco Silva, embora tendo aumentado a percentagem com que foi eleito, foi-o com menos votos. Não se trata de querer retirar legitimidade a quem foi escolhido para o cargo mais representativo da nação por menos de um quarto dos portugueses, mas tão só de percebermos em que pontos estamos. A esquerda, desavinda entre si, não logrou aproveitar-se dos escândalos (ainda por explicar) que comprometem o Presidente da República com a cumplicidade gritante que este mostra ter com as pessoas (homens fortes dos seus antigos governos) que prejudicaram o país de um modo que talvez nunca consigamos avaliar. Infelizmente, na nossa política, não há quem tenha as mãos limpas para poder atirar a primeira pedra. Dizer isto não é referir lugares comuns; o povo nunca precisou de saber ler e escrever para perceber quando é enganado e mal governado. Se à mulher de César não basta ser séria tendo que o parecer, a verdade é que não há neste país quem saia do panorama de desconfiança e corrupção como alguém que, com uma autoridade nacional e figura de respeito, nos faça nele reconhecer as capacidades necessárias à sua condução como Chefe de Estado da Nação. Os perigos decorrentes da má governação e dos desalentos por ela causados na população fazem entrever dias negros para a democracia. Estes são dias negros para a democracia. Não só porque o futuro se mostra embaciado (e, gravíssimo, as novas gerações não se conseguem projectar no amanhã) mas porque o presente faz-nos ter a certeza que não é por nos auto-proclamarmos um Estado Democrático de Direito que o somos. Neste ponto há que apontar o dedo aos Partidos Políticos como os primeiros culpados de um sistema caciquista e ‘tachista’ que em nada beneficia a imagem que os portugueses têm dos políticos e da política. Da mesma maneira que a aparência de poder é poder, a má imagem que os portugueses possuem da política é fruto das más políticas e dos maus políticos; é por isso verdadeira. Mesmo que queiramos recusar a teoria de que a história é cíclica, temos de aceitar, como nos diz George Steiner, que não temos mais começos e que o nos resta é fazer o que já foi feito de outra maneira. Por isso não será de estranhar que, a não ser que mudemos de paradigma dentro da democracia, possamos ficar sem ela quando menos esperarmos. Weimar nunca ficou longe. Em honestidade, quem pode lamentar o fim deste regime? Apenas poderemos fazê-lo se no fim descobrirmos que mudamos afinal de cavalo para burro. Este regime não se segura apenas pela renovação dos políticos e das políticas. Este regime, como muitos na Europa, continua a ignorar um ponto muito essencial: o de que há uma moral pública e uma série de símbolos que regem a vida em sociedade e que é preciso respeitá-los. O preço da paz social não é o conforto ou o pão para toda a gente, é tão só a esperança. E neste momento estamos tão bem providos dela como de bom senso. Se tivesse coragem de o fazer, por certeza científica, resumiria a génese da questão (isto é, a sua origem) ao problema da perda do valor da palavra. Numa época de caracteres máximos para construir pensamentos, tudo fica à flor do pensamento, perdendo-se a capacidade de analisar analiticamente as questões que se nos colocam. Isto destrói a memória e o espaço antes deixado ao dispor da reflexão. A constante recepção de mensagens e informação torna vácuo o limite do pensamento porque o corta. Talvez estas questões, muito mais filosóficas, não respondam a nada; no entanto estou em crer que elas têm um valor ontológico inimaginável, não fosse a nossa compreensão do mundo limitada pelo nosso entendimento da língua. Neste campo critico os panfletários do regime, seus propagandistas de palavras bacocas repetidas ad nauseam por aqueles que, senhores da validade dos seus pensamentos, enganam-se a si próprios acreditando que o peixe podre que vendem aos outros está fresco. A vitória do tipo de política que se faz hoje quererá dizer uma coisa e apenas uma: a de que a perversidade de quem governa dominou enfim o pensamento de quem é governado ou, nas palavras de Carlos de Oliveira, cortou a raíz ao pensamento. Mas um dia os novos políticos surgirão dessa escola destruidora da palavra e já não recuperaremos a total complexidade do pensamento. Esses jovens já começam a falar e a dizer coisas tão vazias como as que fizeram deuses antigos cair no vazio.

(publicado no site da JS de Campolide)

Sábado, 29 de Janeiro de 2011

alteração substancial de facto

Quando a minha mãe se veste de preto a minha avó diz que está a puxar o luto. Por uma questão de sanidade mental eu próprio tenho que mudar de paradigma. Preciso de umas remodelações por aqui. Está muito escuro, caramba. Preciso de me enganar mais.

Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011

tempus edax rerum

Um ano a mais, um ano a menos. Um ano mais perto de me encontrar no leito de morte a lamentar a vida de burocrata. Tão novo, olhem para ele, e já falhou na vida. Deixar-me envecelher é um favor que o tempo me faz. Fossem quarenta e dois e não me sentiria mais velho. Sim, porque me sinto velho. Olhem para ele, tão novo e já a sentir-se tão velho. Arre!

Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

Em busca dos escritores perdidos III

Terceira Parte - O lado de Raúl Brandão


Que importa afinal este bigodaças? Se se perdeu no tempo a memória e a escrita de Raúl Brandão é porque o gajo não prestava para nada. Chama-se 'selecção natural'! Quem é que hoje em dia sabe o que quer dizer a palavra húmus? E sabendo, quem a percebe na sua verdadeira acepção? El Rei-Junot, com certeza! Os pescadores é que não. Mas não importa, os seus livros resilentos e empoeirados permanecerão e nós não. Eu voltei malta; e trago comigo o Raúl!

Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

Glória nas profundezas

Último exame amanhã. Direito das Sociedades. É este o motivo que me mantém afastado da blogosfera. Espero que o simpático leitor compreenda e não pense que me esquivei aos deveres para consigo. Último esforço. Hoje reproduzirei a Via Dolorosa para que amanhã seja achacado pelos mesmos êxtases libidinosos de Santa Teresa.

Domingo, 23 de Janeiro de 2011

Nono Domingo

Ingmar Bergman, O Sétimo Selo

E ao nono Domingo nada mudou. E ao nono Domingo nada mudou porque nada poderia mudar. Ao nono Domingo não se esperava a mudança nem ela se propunha a ser esperada. Todos a evocaram, uns clamando mesmo que ela já tinha chegado. Quando não temos perspectivas, quando deixamos de nos conseguir projectar no passado ou no futuro, então é porque estamos mortos, nús em sangue, e gravitamos no vazio; no limbo exasperante do inefável. É preciso quebrar o selo e, como Judith de Bartók, abrir a sétima porta para a noite.

Sábado, 22 de Janeiro de 2011

Por não saber o que me espera

Se tivesse que dar uma sonoridade a este mês de Janeiro escolheria aquela sarabanda conhecida do Handel (HWV 437), como se estivesse numa procissão lenta rumo ao abismo.

Uma certa Mãe-França

Os excelsos amigos franceses decidiram cancelar as homenagens previstas a Céline pelas suas opiniões anti-semitas. Como dizia o socialista francês Bertrand Delanoe, o gajo era 'um excelente escritor mas um perfeito cabrão'. É nessa qualidade que tem de ser homenageado. Não há problema nenhum em louvar a obra de filhos da puta, desde que se louve só a obra e não se esqueça de quem eram filhos. Neste caso, 'ditosa pátria que tais filhos pare'.

Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011

Chocolate com vinagre

Gostaria de poder utilizar os palavrões como quem manda uma pedra. Sempre de forma certeira e incisiva, cruel, dura e mortificante. Infelizmente, como os uso em demasia, já ninguém se ofende com um 'puta que pariu esta merda toda'. De qualquer modo quem haveria de se ofender se não a dita cuja? Mas pronto, sendo incapaz de os usar com parcimónia uso-os com à vontade. Como na minha terra 'à vontade não é à vontadinha', não ando para aí a mandar caralhadas a torto e a direito, o que seria bem merecedor do estado das coisas.

Hoje há uma expressão que não me sai da cabeça: Draft Common Frame of Reference (DCRF). Qualquer coisa que vem de Direito dos Contratos que tive no segundo ano da faculdade. DCFR, eis a sigla. Tirando o D fica CRF, Carvalho Ferreira Reserva, Aguardente Velha. Vou tomar um copo que amanhã tenho exame de Processo Administrativo. Entretanto retomo a vigília iniciada a semana passada. Esta semana dedico-me a Santo Expedito e a Santa Catarina de Alexandria. A brincar a brincar vou conhecendo o panteão todo.

O primeiro parágrafo do post serve para poder misturar o sagrado e o profano quando conjugado com o segundo parágrafo. Aprende, Mircea Eliade, seu fascista!

Terra Profana (ho, dominus!)

Teodorico soltou um 'irra!' depois do Alpedrinha lhe ter dito que Jerusalém era pior que Braga. Do que Eça se esqueceu foi de tratar do objecto do entendimento, isto é, se estavam a falar dos padres, das putas ou dos paneleiros. Seja como for, como aqui nem sempre há interstícios, pode ser que um certo três em um (mais comum do que se possa pensar) faça deste um 'irra!' de prazer. Enfim, se eu não tivesse nascido em Braga poderia deixar-me enganar, mas não, continuo a preferir o Príncipe Real e a riquinha da Adélia mais o seu proxeneta de bigode loiro.

Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

Em busca dos escritores perdidos II

Segunda parte - À sombra de Ferreira de Castro

Já toda a gente que é gente ouviu falar de Ferreira de Castro. Contudo, poucos o terão lido. Não é que haja algum mal em nunca ter lido Ferreira de Castro. Aliás, é precisamente por causa disso que eu ando à busca desta série de escritores portugueses que deixamos cair no esquecimento como o c do novo fato. Como é óbvio eu não os estou a ir buscar à tumba, à prateleira esquecida da biblioteca municipal de Terras de Bouro (que não tem nenhuma e que terá a que eu lhe legar se assim me for concedido poder fazer). Se o mesmo não acontecia com José Rodrigues Miguéis, a verdade é que teve ser um obreiro (e isto custa-me e sufoco) chamado Paulo Teixeira Pinto a reeditar Ferreira de Castro qual fénix renascida de um exílio literário que parece querer imitar o da vida do autor. Para averiguarmos da importância da contingência nas nossas vidas tomemos o exemplo de Ferreira de Castro. Ferreira de Castro ( este polissíndeto do nome é intencional) não ganhou o Prémio Nobel da Literatura porque não calhou. Ninguém antes de Saramago esteve tão próximo de o trazer para Portugal. Se não aconteceu com Ferreira de Castro também não aconteceu com muitos outros que o mereciam ou o Rushdie que, coitado, deitaria fogo à Europa. Se tivesse acontecido de ganhar este prestigiado prémio (e depois da Jelinek parece-me que o prestígio está em não o ganhar) hoje seria mais um grande vulto da literatura nacional. Como não ganhou não é. O azar é que Ferreira de Castro é todo bom de princípio ao fim por onde já passei e ainda assim lá está ele, esquecido, votado ao ostracismo, ao bom modo da ilustre casa lusitana.

Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

Especuladores financeiros consultam diariamente site do Instituto de Meteorologia Português

O Público online publica hoje uma notícia patética: esta. Segundo a notícia as alterações climáticas podem estar na origem e queda do Império Romano. Para começar a notícia deveria dizer 'podem ter estado' em vez de 'podem estar', mas corrijam-me quanto a isto. Depois quase nem me apetece gozar com o estudo que está na origem desta magnífica pesquisa de algum instituto que não tens mais que fazer aos dinheiros públicos. Que se cale a historiografia e toca a mandar Gibbon para o lixo. Se a acreditar em Tito Lívio os romanos conquistaram o mundo em defesa própria, há que raspar as epígrafes vocativas, os arcos e as colunas. É que pronto, a gente dá uma balda ao aquecimento global e também ao arrefecimento global; os dinaussáurios toda a gente sabe que foi o dilúvio e que não havia lugar para eles na Arca de Noé; agora isto? juro que não entendo. Então afinal não há política, só clima?!

Emissários do Império Solar conquistando Roma

Domingo, 16 de Janeiro de 2011

Das Tunísias

Há pouco vi uma reportagem sobre a revolta dos tunisinos onde um taxista elogiava a juventude por se ter revoltado e imposto a constituição de um novo governo. De facto também me parece que aqueles jovens merecem um elogio, independentemente dos motivos que os guiaram e de quais as suas expectativas quanto ao futuro. Agora mesmo acabei de ler uma notícia dizendo que já há acordo para um novo governo. Muito bem. A questão que se impõe então é a de saber quando terá de ser feita nova revolução ou se a população, macerada, se habituará e baixará os braços. Nesse ponto nós, portugueses, estamos muito mais à frente. O futuro dos povos é o enfado e o conformismo. É que será sempre mais do mesmo ou talvez pior. Das ditaduras de um só homem às ditaduras que as democracias nos impõe recusando-nos um rosto a quem possamos apontar um dedo, prefiro a primeira. Não há nada pior que nos darem a forma sem o conteúdo. É que assim, quem combatemos nós? As sombras? Eu sei bem quem combateria e muito alegrar-me-ia poder ir riscando os nomes da minha lista de proscritos. Não há nenhum dessa lista que não seja homem da 'democracia'. Nunca foi tão perigoso algum modo como o deste tempo.

Oitavo Domingo

Tenho uma paixão assolapada pela macieira partida do Silva Pinto, mas não encontro nenhuma reprodução decente na internet para poder postar. Do mesmo modo não vi ainda nenhum Henrique Pousão que não me tivesse dado prazer e por isso, sempre que vou ao Porto, Soares dos Reis diz-me muito mais que o Museu do Chiado ou a Colecção do Comendador. E Silva Porto? Aqui é a arte que imita a vida; e bem sabemos como esta pode superar aquela.

Ceifeiras, Silva Porto

Sábado, 15 de Janeiro de 2011

Em busca dos escritores perdidos I

Primeira Parte - Do lado de José Rodrigues Miguéis

Não conhecia José Rodrigues Miguéis até me falarem dele. Penso que é assim com tudo, o que faz desta afirmação uma parvoíce pegada que outro intuito não tem se não o de fazer o inestimável leitor acompanhar este post até ao fim ou pelo menos até aqui. Como tenho a certeza que agora me acompanhará durante mais um pedaço e tendo em conta que não há nada sobre este homem que eu possa dizer de relevante que não esteja nos seus livros, poderia recomendar que os comprasse se eles estivessem editados. No início eu julgava não ter nada para dizer e publicitar apenas o homem, mas afinal prova-se que não é bem assim e que mesmo um homem sem nada para dizer pode dizer muitas coisas. No fundo, o que eu gostaria que o leitor já tivesse entendido nesta parte do post é que é bem preferível ir ler qualquer coisa do José Rodrigues Miguéis a continuar aqui a ler José António Borges. Ainda que a atenção que me disponibiliza seja de facto agradável (mesmo que por mim não verificável), mais não posso dizer que 'Idealista num mundo real', 'O milagre segundo Salomé' e 'Léah e outras histórias' são de facto livros notabilíssimos no panorama da literatura portuguesa, seja lá isso o que for desde que tipos como o valter hugo mãe são lidos e aplaudidos. Eu sei que sou novo e pretensioso, mas cum caralho, não me fodam! Perdão e obrigado.

Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011

Neste estado estou por vós, Direito

Amanhã tenho às 9h00 exame de Direito Processual Penal. Já experimentei tudo, até estudar. Se vir que nada mais resulta prometo entregar-me hoje à noite em vigília pelos mistérios de Fátima.

Ai se a vida imitasse a arte...

Uma amiga ofereceu-me este álbum. West meets East. Ravi Shankar, o histórico músico indiano da sitar, um instrumento próximo da cítara (e eu sempre que ouço a palavra cítara lembro-me do Anton Karas e da banda sonora que compôs para O terceiro homem do Carol Reed baseado no livro homonímo do Graham Green) e Yehudi Menuhin, famoso violinista judeu de origem russa. A gravação é de 1967. Não sei o que se pode dizer sobre isto, não sei mesmo, mas achei por bem dizer que uma descoberta assim só se faz de longe a longe, e é quando somos novos.

Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?

Cícero denunciando Catilina, Barloccini, 1849

Assim que fui expulso da biblioteca, que já passava da hora de encerramento, descobri que tinha que esperar duas horas e meia por uma reunião e que entretanto não tinha nada para ler. Fiquei desorientado. O jornal estava corrido de trás para a frente e só me faltava descobrir que raio de árvore seria aquela leguminosa cesalpinácea com cinco letras a começar por 'o'. Então contei os tostões e fui comprar um livro. Comprar, sim. Vejam bem o meu estado que até me esqueci de o não pagar! As Cataliniárias, Cícero. Não me lembro de mais nada até chegar a casa. Até quando enfim, ó políticos, abusareis da nossa paciência? Velam mais eles pela ruína do Estado do que nós pela Sua segurança. Já não posso conviver com a sua presença; não o suporto, não o tolero não o consinto. E que venham eles com ventos virar-me a quilha e dizer que eu estive a ler durante a reunião e que se sentem ofendidos com Cícero que eu rec(e)ito-lhes logo Padre António Vieira e confisco-lhes a cartilha que sempre transportam consigo e que foi escrita por Maquiavel. Arre, que esta gente é 'como tamancos'!

Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

A chusma

A chusma é composta pelos homens do arrabalde, aqueles ingratos que não souberam agraciar com um beijo afastado o anel dos seus senhores. A chusma é mal educada e ignorante, um bando de moncosos a cuspir sífilis e doenças venéreas. A chusma cheira mal e arrota à mesa e tem muitos filhos que andam descalços no meio da merda dos esgotos a céu aberto. A chusma mora longe e vem trabalhar perto e isso incomoda as pessoas bem. A chusma é isso mesmo: chusma, e a palavra não podia ser melhor. Quando digo chusma cheira-me logo mal e torço o nariz, ponho um ar de nojo na cara e seguro o copo com as pontas dos dedos. Como me odiaria ter de ser um dos da chusma, que horror! Preferia mil vezes ser um galgo. A chusma, essa cambada de canalha analfabeta se um dia pensa em amotinar-se é o fim da civilização. Deus nos salve que a chusma descubra que é chusma!

Já não basta terem-nos dado a aparência de não sermos chusma? Ensinaram-nos a ler mas ensinaram-se novas formas de nos enganar. Deram-nos o voto mas fizeram-se eleger e quando foram buscar chusmeiros tornaram-nos no pior que havia deles próprios. Desprezam-nos mas sorriem-nos e beijam as crianças moncosas e apertam as mãos dos velhos que deixam morrer. Dão casas aos mais desfavorecidos apenas como preço da paz social, o mínimo dos mínimos para que não saibamos que somos chusma. Também já podemos ter computadores e telemóveis. E temos computadores e temos telemóveis mas continuamos a ser chusma e não sabemos. Até já podemos vestir lacoste e parecer-mo-nos com eles, mas não somos como eles. Por causa disso já não sabemos quem são eles e quem somos nós. Por causa dos filmes que nos deixam ver ficamos a pensar que se não somos como eles haveremos de ser porque já houve quem tivesse conseguido ser e uma plebeia até se vai casar com um príncipe. A plebeia, é claro, não é do povo, mas isso nós preferimos não saber, porque temos esperança e conforto. Agora vou dormir, que amanhã trabalho para o Senhor que carrego e que até me carregou com uma albarda nova. Que bom e doce e humano e amigo é o senhor que me tirou do meio da chusma...

Domingo, 9 de Janeiro de 2011

Septimus Domingo

Adriano, Kunsthistorische museum, Viena

Uma das coisas que desde sempre gostei foi de escultura romana, que primava pela reprodução fiel dos retratados. No KHM de Viena existe uma galeria só com bustos romanos (a foto de cima representa cerca de um terço da sala) e que constitui muito possivelmente a mais impressionante secção de algum museu que já tive a oportunidade de visitar. Estão ali cerca de trinta pessoas que viveram à cerca de dois mil anos com um olhar tão vivo e catalizador que só pode representar o de quem continua vivo. Cada rosto conta uma história, sem clichés. É mesmo assim. Adriano tem mais vida que o japonês que ao meu lado vê as coisas com a objectiva sempre a intermediar. Se tivesse um busto daqueles em casa também teria escrito as suas memórias.

Este mundo era assim

Há precisamente oitenta anos atrás o avô do meu avô, António José Alves, dos da Laija do Vilar da Veiga, escreveu esta frase no livro do Deve e do Haver da Quinta da Granja. Este Mundo é assim.

Um mundo que é este e não outro. Um mundo que era aquele e não outro. Um com aquela bela caligrafia tinha mesmo de ser outro mundo. Que sentido podemos retirar desta frase que nos possa dizer algo sobre o homem que a escreveu? Nascido no terceiro quartel do século XIX era já homem adiantado na idade quando inicia este livro. Casado em 1898 com Emília Vieira Borges (poucos anos depois perder-se-ia a tradição ainda hoje mantida na Galiza segundo a qual o último apelido dado aos filhos é o da mãe, princípio que fez com que eu recebesse o Borges desta minha tetravó) viria a ter um filho, José Maria Alves Borges, assassinado um ano antes da frase 'Este Mundo é assim' ter sido escrita. Sabemos portanto que este é um homem amargurado pela perda do seu único filho, ficando a seu cuidado o neto, Américo José Alves Borges. A caligrafia que nos é apresentada faz as contas até 1940, depois pára o livro para ser reiniciado somente em 1957. No dia 9 de Janeiro de 1931 temos as seguintes entradas: 1) despesas na ponte - 3$60; 2) dei para o Calvário - 20$00; 3) um dia ao Carpinteiro - 5$00; 4) uma viagem a Braga - 20$00. E continua pelos dias fora, entre despesas com funerais, dízimos, jornas, vestuário ou viagens a receitas com o gado, o vinho, os cereais ou a madeira. Está aqui a história da vida de parte da minha família durante uma década. A década em que o tio Agripino, padre de Paredela do Rio em Montalegre, escondeu republicanos espanhóis na sacristia. Década em que O Estado Novo se afirma e a Guerra começa lá fora. Mas apesar da importância absoluta destes acontecimentos há uma coisa que fica clara: nada disso afecta ou muda a vida da Quinta da Granja. As entradas são esclarecedoras. O que determina os movimentos aqui (neste casarão empedrado do século XVI originalmente dependência dos monges do Mosteiro de Santa Maria de Bouro -daí o nome Granja- comprado depois da extinção das Ordens Religiosas em 1834 por Joaquim António de Aguiar, a partir de então apelidado de 'mata-frades') não é o vai-vem político ou sequer o que faz sugerir o tio Adolfo lá das portas dos bárbaros, é antes algo bem mais simples e verdadeiro: as estações, as mondas, o cultivo dos campos, a resposta às iras da vinha, as mortes e os nascimentos. A vida, em suma. Sem pretensões, nada mais que a vida.

Eu não sei como era a vida em 1931, posso apenas conjecturar. Idealizo o passado, é claro. Face a este presente tenho que idealizar o passado, este passado. Só no conforto progredimos, mas demasiado, já que estamos hoje drogados por ele, como o somen do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. A vida já não sabe ao mesmo, disto eu tenho a certeza. Talvez não saiba nem melhor nem pior, mas ao olhar para aquela caligrafia, para o ritmo da vida e em torno do que girava ela, a minha inveja vivendo no meio da mesquinhez só me faz acreditar que sim, que então era melhor. Não foi o ananás na mesa de todos os portugueses que nos trouxe felicidade. Pelo contrário, as maçãs do nosso pomar eram as melhores e o vinho tinto verde se não era bom, dava boa receita.

Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

poiesis

Enlaça-se o teu no meu corpo,
em espiral imitando as heras da casa velha.
Subindo, subindo sempre,
até aos meus cabelos encaracolados,
que tornearias bem como a um verso
em redor dos teus dedos compridos.

Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

Que os teus descendentes sejam amaldiçoados até à décima geração, infame ladrão de livros!


A magna Biblioteca jurídica da minha faculdade tem este poster por cima da mesa das requisições, logo cerca da entrada. Quando aos homens não lhes chegam as leis e princípios legais para os afastar de cometer um ilícito há que arranjar outra maneira de evitar que cedam os leitores a essa gigante tentação que é apropriarem-se de algo que não é seu. Desconheço a origem deste aviso nem sei se ele é sério ou apenas jocoso. Contaram-me que está espalhado por todas as paredes da Biblioteca da Universidade de Leão, em azulejos, pinturas e papeis. Tenho dúvidas que Sua Santidade reservasse para si a capacidade de excomungar alguém por roubar livros, mas gosto da ideia. Gosto da ideia pelo lugar que é dado ao livro enquanto objecto cimeiro e de enorme valor, por tornar tal acto como um de pena maior. Um crime. Pior, um pecado! Um pecado com a culpa a corroer-nos e afastando-nos do caminho da salvação. O que me surpreenderia menos seria a proibição total de ler mas já sem direito a bula de indulgências ou perdão. Não é preciso existir Index para que continue a haver barreiras intelectuais que privem certas pessoas de ler certas coisas. A única coisa que nos deveria impedir de ler algo deveria ser apenas o bom gosto. Mas como o bom gosto é, a seguir ao bom senso, a coisa mais bem partilhada do mundo... De qualquer modo, eu não roubo livros de Bibliotecas. Por três motivos: primeiro porque são públicas, segundo por colocarem os livros à disposição de todos e terceiro porque, regra geral, são acompanhados de um ex-libris ou carimbos que denunciariam para sempre a proveniência dos exemplares que guardo e como, de forma desonrada, me apropriei deles. Coisa diferente de ter livros com carimbos ou ex-libris da Biblioteca da Colónia Penal do Tarrafal ou de particulares que entretanto faleceram. Eu gosto de Bibliotecas Públicas e gosto de as frequentar para ler os livros que levo de casa. Os livros são a minha única exigência material. Mas quanto a roubar livros hoje e ser-se excomungado por isso? Já ninguém se deixa enganar. Por vezes vou no carro com amigos e deixamos os livros à mostra do lado de dentro. Alguém diz que é melhor guardá-los no porta-bagagens. Eu digo sempre que não faz sentido, afinal quem é que hoje ainda rouba livros?